Contos da Quadra · Ficção
O Malandro do Milhar
Tonico sempre teve uma história para tudo. Até o dia em que voltou ao boteco carregando uma caixa.

Tonico tinha uma história para cada botão do paletó, embora o paletó conservasse apenas dois. O terceiro fora levado pela pressa numa porta de bonde, segundo ele. Dona Lídia dizia que bonde nenhum circulava por ali havia muito tempo. Tonico então acrescentava que a perda era antiga, dessas que um homem carrega sem encontrar substituição à altura. Foi por causa dessa maneira de multiplicar o mundo que Zé começou a chamá-lo de Milhar. O apelido pegou antes que alguém procurasse uma conta.
Naquela terça-feira, chegou ao boteco sem história. Pôs sobre o balcão uma caixa de madeira, pequena e escura, e ficou com a mão por cima dela. Zé esperou. O rádio estava desligado, a rua molhada e o relógio da parede atrasava do mesmo modo havia três anos.
— Vai deixar uma encomenda?
Tonico tirou a mão da caixa. Havia uma marca clara no dedo onde antes usava um anel.
— Vim buscar uma coisa.
Zé olhou para a madeira, depois para ele. Não perguntou o quê. Conhecia aquele homem desde o tempo em que os dois ainda acreditavam que uma resposta rápida servia para qualquer situação.
A caixa pertencera a Artur, pai de Zé. Ficava na prateleira mais alta, perto de uma cartela de animais desbotada pelo sol da tarde. Dentro, havia uma gaita e um pano de algodão. Artur tocava duas melodias, sempre as mesmas, e dizia que não tinha tempo de aprender a terceira. Quando morreu, Zé guardou a caixa sem abrir. Algumas coisas pareciam menores enquanto permaneciam fechadas.
Tonico a levara numa noite em que o boteco estava cheio. Disse que conhecia um homem capaz de consertar a gaita. Zé não lembrava de ela estar quebrada, mas deixou. Havia confiança suficiente para essas pequenas desatenções. Depois veio uma semana, outra, e o assunto começou a exigir perguntas. Tonico sempre tinha uma resposta. O homem viajara. A peça não chegara. A oficina mudara de endereço.
Um dia, Zé parou de perguntar. Tonico continuou entrando, ocupando a mesma cadeira, comentando o calor. A caixa, ausente, passou a ocupar um espaço maior que o de antes. Quando conversavam, os dois desviavam dela como se fosse um móvel colocado no meio do salão.
Agora estava ali.
— Está consertada? — perguntou Zé.
— Nunca esteve quebrada.
Do lado de fora, uma bicicleta passou cortando a água junto ao meio-fio. Tonico acompanhou o ruído até desaparecer. Tinha preparado uma frase no caminho. Era boa, com começo triste e final elegante. Na frente de Zé, percebeu que a frase servia para esconder justamente o que precisava dizer.
— Eu deixei a gaita numa casa de penhores.
Zé não moveu a caixa. Passou um pano numa parte seca do balcão.
— Por quê?
Tonico respirou como quem ia abrir a porta de um quarto abafado.
— Porque precisei. E porque achei que devolver depressa faria diferença.
Não contou uma doença, um incêndio ou uma injustiça de patrão. Dessa vez, o mundo ficou do tamanho do que ele tinha feito.
Dona Lídia entrou procurando um guarda-chuva esquecido. Viu os dois e diminuiu o passo. O objeto estava atrás da porta, onde ela mesma o deixara. Pegou, examinou uma vareta torta e decidiu que aquilo podia esperar até outra ocasião.
— A chuva está acabando — disse, para ninguém em particular.
Zé levantou a tampa. O pano tinha uma dobra nova. A gaita trazia a mesma pequena mancha junto a um dos cantos. Ele se lembrava do pai passando o polegar naquele lugar antes de tocar. Não sabia, até então, que lembrava do polegar.
— Você tocou?
— Não sei tocar.
— Eu também não.
Tonico sorriu por hábito e parou no meio. A ausência do anel parecia maior sob a luz do balcão. Zé percebeu, mas não perguntou. A devolução não apagava os meses, e saber o preço dela não devolveria a confiança por inteiro. Havia coisas que não aceitavam troco.
— Pode ficar aí — disse Zé.
Tonico olhou para a cadeira.
— Hoje?
— Hoje.
Sentou sem tirar o paletó. Dona Lídia abriu o guarda-chuva dentro do salão, contrariando uma recomendação antiga da própria mãe. Uma vareta apontava para o teto como dedo de aluno. Ela pediu linha, mas Zé só encontrou barbante. Os três examinaram o defeito com uma atenção desproporcional, gratos por existir alguma coisa pequena que pudesse ser reparada naquela tarde.
Tonico segurou a vareta enquanto Lídia deu o nó. Seu dedo escorregou duas vezes. Na terceira, conseguiu. Ninguém fez comentário.
Mais tarde, quando o sol apareceu numa faixa estreita da calçada, Zé levou a gaita à boca. Saiu um som curto, áspero, muito diferente do que lembrava. Tentou outra vez. Tonico olhou para o chão. Lídia, já na porta, ficou um instante a mais.
O segundo som durou menos, mas havia nele alguma coisa que Zé reconheceu. Não era a melodia do pai. Talvez fosse apenas o ar passando por um lugar que permanecera fechado por tempo demais.
Tonico abriu a boca. Poderia dizer que conhecera um músico extraordinário, que a gaita precisava de certo jeito, que uma vez, numa cidade distante. Fechou-a de novo. Pela primeira vez em muitos anos, não encontrou necessidade de acrescentar nada.
Zé guardou o pano, deixou a caixa aberta e tentou uma terceira nota.
Na cadeira junto à janela, Milhar ficou ouvindo, com as duas mãos pousadas sobre os joelhos.