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Gazeta dos 25

História, folclore e cultura popular brasileira — a quadra do bicho como matéria-prima.

História

Jogo do bicho: a origem no Rio de Janeiro, em 1892

De uma atração em Vila Isabel a um repertório das ruas: o começo de uma história que atravessa gerações.

Redação · · 6 min de leitura

Ilustração de um portão de jardim, palmeiras e casario inspirada no Rio antigo.
Ilustração original da redação, 2026. Interpretação contemporânea, não documento de acervo.

O Rio de Janeiro de 1892 não cabe inteiro numa fotografia antiga. Havia a cidade das grandes fachadas e a cidade de quem atravessava longas distâncias para trabalhar. Havia novidades anunciadas como futuro e costumes que sobreviviam na conversa. Foi nesse ambiente, já nos primeiros anos da República, que uma atração do Jardim Zoológico de Vila Isabel começou a produzir uma história muito maior que seus portões. Para entender o nascimento do jogo do bicho, vale começar por esse endereço, sem fingir que uma única tarde explica tudo.

A Biblioteca Nacional situa a criação em 1892 e a relaciona ao empresário João Batista Viana Drummond. Seu zoológico precisava atrair visitantes. A associação entre ingresso e figura de animal oferecia uma forma simples de reconhecimento: uma imagem podia ser lembrada e comentada por pessoas com experiências muito diferentes de leitura. O bicho era uma imagem do passeio e, ao mesmo tempo, uma peça de uma novidade comercial. A passagem para o repertório das ruas viria depois.

Antes da lenda, um lugar

Vila Isabel é indispensável a essa história. Quando o episódio é resumido apenas como uma invenção esperta, desaparecem o bairro, o deslocamento dos visitantes, a administração do parque e a cidade que sustentava aquele empreendimento. Um zoológico não era uma caixa isolada: dependia de circulação, manutenção, divulgação e gente disponível para passar algumas horas ali. O lazer também tinha endereço, custo e condições de acesso. Observar isso aproxima a narrativa da vida comum.

Fotografias reunidas pela Brasiliana Fotográfica ajudam a olhar para esse espaço. Elas não registram todos os visitantes nem todas as conversas. Mostram enquadramentos escolhidos por quem fotografou, em condições materiais específicas. Mesmo assim, fachadas, caminhos e vegetação devolvem espessura a um lugar que a memória costuma reduzir a um nome. Uma imagem de época deve ser vista como documento, com autoria e data, e não como janela transparente para qualquer cena que desejemos imaginar.

Uma tarde que virou marco

A data de 3 de julho de 1892 aparece como referência inaugural na reconstituição apresentada pela Brasiliana Fotográfica. O avestruz ocupa lugar de destaque nesse relato. Isso permite identificar um marco documentado, mas não autoriza inventar o diálogo de um visitante ou o pensamento do proprietário. A história fica mais interessante quando sabemos onde termina a informação disponível e onde começaria a imaginação. Essa segunda parte tem lugar nos contos, explicitamente identificada como ficção.

O mecanismo inicial ligava figuras de animais à visita ao parque. A quadra numérica hoje conhecida pertence a uma história de organização e circulação que não deve ser projetada automaticamente sobre cada detalhe do primeiro dia. Quando juntamos todas as versões numa cena perfeita, o passado parece mais simples do que foi. É melhor conservar algumas perguntas abertas do que fabricar a precisão de um documento que ainda não encontramos.

O caminho entre o portão e a rua

Como uma novidade de um parque se torna assunto de cidade? Não basta apontar um autor. É necessário pensar nos meios pelos quais imagens, palavras e expectativas circulam. Quem visita um lugar volta para casa e conta alguma coisa. Quem vende impressos leva figuras a outros públicos. Quem conversa numa venda adapta o relato ao ouvido de quem está por perto. Esses caminhos ajudam a compreender a difusão cultural, embora cada episódio concreto dependa de pesquisa própria.

O pequeno papel tem importância nessa transformação. Ele pode atravessar distâncias maiores que um espetáculo e permanecer depois de encerrada uma visita. Uma figura guardada numa gaveta encontra novos usos, recebe anotações, muda de mãos. O estudo de impressos históricos da Biblioteca Nacional chama atenção para esse mundo material. Observar a tipografia e a composição de uma estampa é também perguntar como ela procurava ser reconhecida, lembrada e reproduzida.

Popularidade não apaga conflito

A expansão do bicho não foi uma marcha tranquila de aceitação. Houve proibições, disputas e repressão. A presença de uma prática na memória popular não elimina seus conflitos, assim como a existência de registros policiais não resume a vida de todas as pessoas que aparecem neles. Uma história cuidadosa precisa olhar para fontes de naturezas diferentes. A voz de uma autoridade, a notícia de jornal e a lembrança familiar não dizem a mesma coisa nem têm a mesma finalidade.

Também convém separar períodos. O vocabulário usado numa notícia do fim do século XIX pode carregar julgamentos que hoje reconhecemos com mais clareza. Repeti-lo sem contexto perpetua o olhar de quem tinha poder para classificar os outros. A leitura histórica não exige concordância com o documento; exige atenção ao que ele informa e ao modo como foi produzido. Esse cuidado impede que o passado vire decoração para uma certeza pronta.

Por que os animais ficaram

O repertório de bichos oferece nomes concretos e imagens reconhecíveis. Avestruz, águia, cachorro e cobra podem ser desenhados, narrados e associados a histórias. Essa característica ajuda a compreender a força cultural do conjunto, sem atribuir a cada imagem um significado universal. Um animal pode despertar lembranças diferentes conforme a região, a experiência de trabalho, a infância ou a tradição familiar de quem fala. O mesmo desenho não produz uma memória idêntica em todos.

Na tradição popular, há relatos que aproximam bichos de sonhos e acontecimentos cotidianos. Eles interessam como formas de interpretação e conversa. Não são comprovação de que uma imagem prevê o futuro. A distinção permite ouvir um relato com respeito sem transformar o narrador em autoridade sobre acontecimentos aleatórios. É possível estudar a imaginação social mantendo a diferença entre uma associação cultural e uma relação demonstrada.

Uma origem, muitas histórias

O episódio de Vila Isabel continua sendo uma boa porta de entrada porque reúne cidade, lazer, imprensa e circulação de imagens. Mas uma origem não contém todas as consequências. O que aconteceu depois atravessou lugares, mudanças de linguagem e relações sociais que merecem pesquisas próprias. A ideia de uma história completa precisa, portanto, ser entendida com modéstia: este texto apresenta um percurso inicial, não um inventário definitivo de cada controvérsia.

Talvez a melhor forma de guardar 1892 seja conservar juntos o fato e a pergunta. Houve um zoológico, um empreendimento e uma atração que ultrapassou seu endereço. Houve também pessoas cuja participação aparece apenas de passagem nos documentos. Entre a data impressa e essas vidas pouco registradas, existe muito trabalho de memória. O passado não fica menor quando admitimos seus espaços em branco. Fica mais próximo da cidade real, que nunca coube inteira numa única fotografia.

Fontes e referências

Consulta em 19 de outubro de 2026.

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