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Gazeta dos 25

História, folclore e cultura popular brasileira — a quadra do bicho como matéria-prima.

História

Por que a quadra tem 25 grupos e 100 dezenas?

Uma folha de animais também conta uma história sobre números, imagens e memória popular.

Redação · · 6 min de leitura

Composição ilustrada de uma cartela, folhas de papel e um tinteiro.
Ilustração original da redação, 2026. Interpretação contemporânea, não documento de acervo.

Uma cartela da quadra pode parecer complicada antes da primeira leitura. Os nomes de animais chamam o olhar, os números se repetem em fileiras e a composição costuma caber numa folha pequena. Quando a organização aparece com clareza, porém, a estrutura é simples: vinte e cinco grupos distribuem cem finais numéricos, com quatro dezenas em cada grupo. A conta explica o tamanho da tabela. Ela não explica, sozinha, por que esse arranjo permaneceu tão presente na cultura popular.

Este texto olha para a quadra como um sistema de classificação e um objeto impresso. Não traz orientação de participação nem previsão. Os nomes e as correspondências exibidos neste portal vêm de uma mesma base, conferida com uma cartela do acervo do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e uma referência consolidada. Essa decisão evita um problema frequente em tabelas copiadas: uma mudança de linha pode deslocar todo o conjunto sem que o desenho pareça errado.

A conta e a convenção

A conta descreve a organização. As pessoas dão história à tabela.

Nota da redação

Vinte e cinco vezes quatro resulta em cem. Essa igualdade é verificável, mas não prova que alguém tenha escolhido o formato por uma razão mística, natural ou inevitável. Uma classificação cultural reúne decisões que, ao serem repetidas, passam a parecer dadas desde sempre. A quantidade de grupos pertence à convenção histórica da quadra. O fato de a conta fechar mostra coerência interna, não uma lei da natureza escondida entre os animais.

Outro detalhe costuma provocar estranhamento: os finais numéricos incluem o zero duplo. A escrita com dois algarismos importa porque estamos falando de posições numa tabela, não de uma contagem de objetos sobre a mesa. Zeros à esquerda preservam a forma de apresentação. Apagá-los numa planilha pode mudar a leitura visual, mesmo quando o programa julga estar apenas simplificando um número. É uma pequena questão de edição com consequências para a precisão.

Um animal, quatro correspondências

Cada grupo recebe o nome de um animal e reúne quatro dezenas. Não existem quatro espécies diferentes dentro de um mesmo grupo nessa organização tradicional. A diferença pode parecer óbvia a quem conhece a cartela, mas merece ser dita porque descrições apressadas confundem grupos, animais e dezenas. Uma boa legenda deve apresentar essas três coisas separadamente. Quanto mais simples é o objeto, menos desculpa há para uma explicação que o torne confuso.

O número do grupo indica sua posição. O nome do animal oferece uma referência verbal e visual. As dezenas são as quatro correspondências daquele conjunto. Nenhum desses elementos substitui os outros em todo contexto. Uma pesquisa sobre imagens pode destacar o animal; uma conferência de tabela precisa observar também a posição e os finais numéricos. Saber qual pergunta está sendo feita ajuda a escolher o que deve aparecer em primeiro plano.

A força de uma tabela desenhada

Uma tabela de animais não depende apenas de algarismos. O desenho pode ser reconhecido à distância, mencionado numa conversa e lembrado depois que a folha desaparece. Essa combinação entre palavra, imagem e posição faz da quadra um objeto interessante para a história da comunicação. Ela articula formas diferentes de memória. Quem se lembra de uma figura pode procurar o nome; quem conhece o nome pode localizar uma posição; quem observa a sequência pode perceber um erro.

Isso não significa que todas as pessoas compreendam a imagem do mesmo modo. Uma representação de ave pode mudar de traço entre duas cartelas. Um desenho ruim pode ser confundido com outro animal. O nome escrito, por sua vez, ajuda a estabilizar a identificação. Em vez de tratar a ilustração como enfeite, vale vê-la como parte da informação. A relação entre desenho e legenda precisa continuar legível quando a folha é reduzida ou reproduzida.

O que a ordem não informa

Estar no começo ou no fim da quadra não torna um bicho mais importante, mais frequente ou mais favorável. Uma sequência de classificação não é um pódio. A águia, por exemplo, pode sugerir altura em uma leitura simbólica, mas essa associação não altera sua posição documentada. Misturar uma metáfora com a tabela produz um erro factual. A cultura pode acolher muitos sentidos; a referência numérica precisa permanecer definida.

Também não há motivo para deduzir uma qualidade moral da posição de um animal. O costume de organizar imagens em fileiras não transforma seres vivos em personagens fixos. Na fala popular, certos bichos aparecem como atentos, pacientes ou astutos. Essas associações pertencem a narrativas específicas. Devem ser apresentadas como interpretações de quem fala, sem a pretensão de descrever universalmente pessoas, animais ou acontecimentos futuros.

Conferir sem depender da aparência

Na edição de uma referência cultural, a conferência começa pelo conjunto. É necessário verificar se existem todos os grupos esperados, se cada um tem quatro dezenas e se o mesmo final não aparece em dois lugares. Depois vem a leitura de cada nome e posição. Essa separação entre verificações gerais e detalhes evita confiar apenas numa imagem bonita. A aparência familiar de uma cartela não garante que sua transcrição esteja correta.

As fontes também precisam ser identificadas. Uma imagem sem origem não permite saber se é uma variante regional, uma montagem recente ou uma reprodução com erro. O documento do IRPH utilizado aqui é uma fonte de acervo para a cartela, não uma autoridade que regule a prática. A distinção é essencial. A palavra “oficial” pode qualificar a instituição que guarda um documento, mas não transforma automaticamente todo objeto guardado numa norma oficial.

Cem posições e muitas memórias

A quadra tem limites numéricos claros e uma vida cultural aberta. Seus animais aparecem em conversas, lembranças de impressos e relatos de família. Estudar esse repertório não exige atribuir poderes aos números. Exige observar como uma estrutura relativamente estável recebe interpretações diferentes. O desenho pode permanecer parecido enquanto muda o lugar em que é visto, a pessoa que o comenta e a história contada ao seu redor.

Por isso, a resposta à pergunta inicial tem duas camadas. A tabela reúne vinte e cinco grupos porque essa é a convenção consolidada; quatro dezenas por grupo completam os cem finais. Já sua permanência interessa à história dos objetos, da linguagem e da memória. A aritmética descreve a organização. As pessoas explicam por que uma folha de bichos pode continuar guardada na lembrança muito tempo depois de ter saído de circulação.

Fontes e referências

Consulta em 19 de outubro de 2026.

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