Contos da Quadra · Ficção
A Quadra do Boteco do Zé
Debaixo de uma cartela antiga, quatro linhas quase apagadas mudam a tarde de três vizinhos.

O retângulo claro na parede apareceu quando Zé tirou a cartela para pintar o salão. Era mais pálido que o resto, do tamanho exato do papel que ficara ali durante anos. Parecia uma janela fechada pelo lado de dentro. Zé passou a mão sobre a tinta antiga e encontrou, no canto, um pequeno risco de lápis que não lembrava de ter visto.
Dona Lídia estava sentada perto da porta, costurando a barra de uma cortina. Tonico segurava uma lata vazia e procurava uma utilidade para ela. Desde a história da gaita, oferecia ajuda sem enfeitar muito a oferta. Zé aceitava algumas vezes. A confiança voltava devagar, como quem ainda confere o degrau antes de apoiar o pé.
— Isso é letra do seu pai — disse Lídia.
Zé se aproximou. Havia quatro linhas miúdas, quase cobertas pela marca de poeira. Na primeira, conseguiu ler “porta”. Na segunda, “dia”. As outras pareciam trilhas de formiga.
— Ele escreveu na parede?
— Escrevia onde o pensamento encontrasse lugar.
A cartela estava sobre uma mesa, protegida por um pano. A águia perdera parte da cabeça numa dobra, o cachorro tinha uma mancha de umidade e a cobra continuava inteira, talvez porque Artur sempre limpasse aquele canto com mais cuidado. Zé não sabia de onde o pai trouxera o papel. Lembrava apenas de vê-lo ali, acima das garrafas, tão parte do boteco quanto o ruído do ventilador.
Tonico sugeriu molhar a ponta de um pano para limpar a parede. Lídia segurou seu braço antes que encostasse.
— Vai apagar o que está tentando ler.
Ele baixou a mão. Pegou uma cadeira e ficou em silêncio, observando as quatro linhas. Zé trouxe uma luminária do quartinho. Sob a luz de lado, algumas letras apareceram. “Quando”. “Fica”. “Volta”. Eram palavras comuns, mas juntas, na letra do pai, pareciam coisas encontradas no fundo de um rio.
Lídia disse que talvez fosse uma quadra. Quatro versos. Artur fazia dessas, às vezes para uma festa, às vezes para ninguém. Zé nunca ouvira falar. O pai tinha sido, para ele, o homem que abria a porta antes do amanhecer e fechava o caixa com as sobrancelhas juntas. Não combinava facilmente com versos escondidos atrás de uma folha de bichos.
— Ele mostrava para a senhora?
— Algumas coisas.
Zé sentiu um ciúme pequeno, quase vergonhoso, de uma conversa que acontecera antes de ele saber fazer perguntas ao próprio pai.
Passaram uma hora tentando ler. Tonico propunha palavras compridas que não cabiam no espaço. Lídia rejeitava duas e aceitava a terceira, sem certeza. Zé anotava num caderno, riscando mais do que escrevia. A pintura parou. O salão cheirava a parede úmida e café que esfriara na garrafa.
Um freguês bateu na porta. Zé respondeu que estavam fechados. O homem perguntou até quando. Zé olhou para a parede e disse que ainda não sabia.
Na terceira linha havia um nome. Lídia reconheceu antes dos outros e deixou a agulha cair no colo. Era Celina, mãe de Zé. Ela morrera quando ele ainda precisava de um banco para alcançar a pia. Durante muito tempo, pensara que as poucas lembranças que conservava eram todas as que existiam.
— Era para ela?
Lídia demorou a responder.
— Talvez. Seu pai não explicava tudo.
Zé passou a página do caderno. Agora queria decifrar de uma vez, recuperar cada palavra, como se a demora pudesse apagar o restante. Encostou o rosto quase na parede. Uma gota de suor caiu perto do risco, e ele se afastou assustado.
Tonico pôs a lata vazia no chão.
— Pode ficar faltando um pedaço.
Zé olhou para ele com irritação. Milhar, que sempre sabia completar qualquer história, estava justamente naquele dia defendendo um espaço em branco.
— Não precisa ser hoje — acrescentou Tonico.
Ao cair da tarde, tinham três linhas incompletas e uma palavra inteira no fim: “casa”. Lídia lembrava de Celina cantando enquanto limpava copos, mas não lembrava de qual música. Tonico recordou a maneira como Artur segurava a gaita. Zé contou que o pai assobiava apenas quando pensava estar sozinho. Cada um tinha guardado um detalhe, e nenhum detalhe completava os outros.
Ficaram assim por algum tempo, sem tentar montar uma pessoa inteira.
Zé fechou o caderno. Com fita, marcou um retângulo ao redor da escrita. A pintura seguiria por fora. Lídia recolheu a agulha e dobrou a cortina. Tonico lavou os pincéis, demorando mais do que o necessário para não deixar tinta junto às cerdas.
Quando recolocaram os móveis, a cartela foi parar na parede ao lado, um pouco mais baixa. O cachorro continuava manchado, a águia incompleta. Zé não tentou restaurar nenhum dos dois. Sobre os versos, pendurou um vidro simples que encontrou no depósito. Não escreveu uma explicação.
Na manhã seguinte, abriu o boteco no horário de sempre. O primeiro freguês estranhou o retângulo antigo no meio da tinta nova e perguntou o que havia ali.
Zé olhou para as quatro linhas. Podia contar a história do papel, da luminária, da tarde inteira. Podia dizer o nome da mãe. Serviu o café antes de responder.
— Uma coisa que meu pai deixou.
O homem assentiu, como se entendesse. Talvez entendesse outra coisa, e Zé não corrigiu.
Quando a porta se moveu com o vento, a luz da rua atravessou o vidro e pousou sobre a última palavra.