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Gazeta dos 25

História, folclore e cultura popular brasileira — a quadra do bicho como matéria-prima.

Memória & documentação

Extrações: do zoológico aos sorteios de hoje

Uma caixa no zoológico, notícias que viajavam pelo rádio e globos transmitidos pela internet. A história dos procedimentos e das pessoas que os acompanhavam.

Redação da Gazeta dos 25

Extração é uma palavra que atravessou balcões, páginas de jornal e telas. Por trás dela há maneiras diferentes de produzir um resultado, anunciá-lo e pedir que alguém confie nele. Reunimos documentos e pesquisas para acompanhar essa história. O passeio começa com uma imagem guardada numa caixa, passa pela circulação de notícias e chega aos procedimentos que podem ser consultados hoje.

Uma gravura no portão do zoológico

O primeiro cenário é o Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Na reconstrução histórica publicada por Rômulo Bulgarelli Labronici, a estreia ocorreu em 3 de julho de 1892. Quem visitava o jardim recebia um ingresso com a figura de um animal. Perto da entrada, uma caixa de madeira guardava outra figura, que seria mostrada ao público às cinco da tarde. Fonte 1

O detalhe muda a cena que muita gente imagina: dentro da caixa havia uma gravura, não um animal esperando para sair. Também não se tratava do globo transparente que hoje associamos a sorteios. Segundo o relato recuperado pelo pesquisador, a escolha da imagem era feita previamente pelo barão de Drummond. A expectativa do público acompanhava sua revelação.

Convém conservar a distância entre aquele domingo e nossa leitura. O estudo examina uma história transmitida e reconstruída por diferentes autores; não oferece uma filmagem nem um protocolo completo da cerimônia. É possível contar a cena documentada sem acrescentar falas, personagens ou gestos que a fonte não registra.

Quando o resultado passou a vir de outro lugar

Quarenta anos depois, um documento do governo mostra outra relação com as extrações. Na exposição de motivos do Decreto nº 21.143, de 10 de março de 1932, o ministro da Fazenda relacionava o jogo do bicho às extrações diárias da Loteria Federal. Defendia reduzir a frequência dessa loteria como forma de enfrentar aquela atividade. Fonte 2

O documento permite afirmar que essa ligação já era reconhecida pelas autoridades em 1932. Ele não determina o dia em que cada cidade abandonou um procedimento próprio, nem demonstra que todas passaram a seguir a mesma referência. Tampouco transforma o uso de um resultado oficial por terceiros em parceria com o governo.

Há ainda uma voz a identificar no papel: trata-se de uma justificativa para uma medida de repressão e reorganização das loterias. O autor procurava convencer, não apenas descrever. Ler esse documento ao lado de estudos históricos ajuda a perceber tanto o funcionamento mencionado quanto os interesses de quem o registrou. A fonte antiga também precisa de legenda.

O sorteio comum e os limites do mapa

Em um artigo de 2011, o sociólogo Michel Misse descreveu a formação de sorteios acompanhados por representantes de diferentes banqueiros e a adoção de resultados comuns, associados ao nome Paratodos. Sua análise aborda o Rio de Janeiro e conexões com outros estados. É um relato sobre acordos entre organizações, não uma descrição de fiscalização pública. Fonte 3

O mesmo estudo observa a autonomia de organizações estaduais e a ausência de uma estrutura única comandando todo o país. Essa observação impede uma simplificação tentadora: desenhar uma linha reta do zoológico para um sorteio nacional que teria substituído todos os demais.

Na história social, a confiança também aparece como algo construído entre pessoas e instituições. Misse analisa como ela era representada pelos participantes. Registrar essa percepção não significa certificá-la. Um acordo entre bancas, a presença de seus representantes e uma auditoria pública são coisas diferentes, mesmo quando o vocabulário cotidiano aproxima as três. E um retrato publicado em 2011 não serve, sozinho, para descrever qualquer organização de hoje.

Do telefone ao terminal conectado

A notícia de um resultado tem sua própria história. Na dissertação de Leonardo Sena do Carmo, defendida na USP em 2020 e disponibilizada em 2021, telefone e rádio aparecem entre os meios que ajudaram a circulação de informações. O trabalho acompanha a incorporação de tecnologias pelas organizações do jogo do bicho e investiga três delas em Arapiraca, Alagoas. Fonte 4

Nas observações de campo realizadas em 2019, conviviam comunicação oral, rádio e terminais conectados. O equipamento novo não apagava automaticamente as relações anteriores. A pesquisa permite enxergar uma transformação concreta: parte da informação que precisava percorrer uma cadeia de pessoas passava também por dispositivos e redes digitais.

Mas terminal conectado não é sinônimo de sorteio eletrônico. Registrar uma operação, transmitir uma notícia e produzir um resultado são etapas distintas. O estudo documenta mudanças na organização e na circulação da informação; não autoriza concluir que um programa passou a sortear todos os resultados. Seu recorte local tampouco deve ser esticado até virar uma descrição de todo o Brasil em 2026.

Como funcionam os sorteios oficiais hoje

Para os procedimentos atuais das Loterias CAIXA, há regras publicadas pela própria instituição. Os equipamentos descritos são de acrílico, permitindo observar as bolas e seu embaralhamento. A configuração varia conforme a modalidade. Na Federal, a regra apresenta cinco globos para formar o número; também prevê configurações com quatro ou um globo. Não existe um único arranjo físico para todas as situações. Fonte 5

A conferência começa antes da saída das bolas. Segundo a CAIXA, dois representantes voluntários do público verificam lacres, equipamentos vazios e o conjunto de bolas, acompanham o procedimento e assinam a ata. Uma intervenção necessária no equipamento deve ser acompanhada por esses representantes.

A transmissão pela internet inclui etapas de preparação e conferência. Assistir numa tela, portanto, não significa necessariamente assistir a um número produzido por software: a imagem pode mostrar um sorteio físico. Essas são as regras declaradas pelo operador oficial, consultadas para esta reportagem. Descrevê-las não equivale a uma auditoria independente de cada extração, nem permite atribuir os mesmos controles a uma banca que utilize ou divulgue aqueles números.

E as extrações do bicho no presente?

É aqui que uma resposta honesta precisa admitir os limites das fontes. O artigo de Rômulo Bulgarelli Labronici e Norberto Montani Martins, publicado em 2025, analisa regras internas, relações de confiança e mecanismos de organização do jogo do bicho. A palavra “regulação”, no estudo, ajuda a compreender acordos e práticas desse mercado; não significa uma certificação governamental dos sorteios. Fonte 6

Essa pesquisa recente não oferece um inventário técnico de todas as bancas nem uma inspeção de todos os seus equipamentos. Assim, não há base nesse conjunto de documentos para dizer que, hoje, cada extração utiliza o mesmo globo, a mesma transmissão ou o mesmo método de conferência.

Quando uma publicação apresenta um resultado, ainda é necessário saber a que organização se refere e como aquela informação foi obtida. A existência de uma tabela bem organizada não responde a essas perguntas. Para a história das extrações, a diversidade de arranjos é parte do assunto; substituí-la por um procedimento universal seria inventar uma uniformidade que as pesquisas não demonstram.

O que a tela conta — e o que fica fora dela

Uma maneira útil de ler essas histórias é separar três perguntas: como o resultado foi produzido, como foi conferido e como chegou ao público. A mesma notícia pode viajar por muitos caminhos. Cada reprodução acrescenta uma etapa entre o acontecimento e o leitor; não acrescenta, por si só, uma nova verificação.

Por isso as referências abaixo identificam autores, documentos e períodos. Uma memória do zoológico pede perguntas diferentes das dirigidas a uma regra operacional atual. Um estudo de campo permite observar práticas situadas; uma norma informa o procedimento previsto. Nenhuma dessas fontes precisa fingir ser a outra para contribuir com a história.

Extrações, nesta seção, é esse percurso de leitura. O interesse está nos objetos, nas pessoas e nas formas de tornar um resultado conhecido. O arquivo ajuda a reconhecer o que mudou; a atenção às fontes ajuda a reconhecer o que ainda não sabemos.

Caderno de referências

De onde vem esta história

Fontes consultadas em . As datas dos estudos indicam o período de cada publicação; não são datas de atualização de resultados.

  1. Sorteio de bicho: uma análise do lazer para fora da lei

    Rômulo Bulgarelli Labronici. Recorde — UFRJ, 2014.

    v. 7, n. 2, pp. 5–9.

  2. Exposição de motivos do Decreto nº 21.143, de 10 de março de 1932

    Ministério da Fazenda. Câmara dos Deputados — acervo legislativo, 1932.

    p. 2, item 10.

  3. Crime organizado e crime comum no Rio de Janeiro: diferenças e afinidades

    Michel Misse. Revista de Sociologia e Política / SciELO, 2011.

    v. 19, n. 40; seção II.

  4. Território, finanças e circuitos da economia urbana: investigando a capilaridade das organizações do jogo do bicho em Arapiraca (AL)

    Leonardo Sena do Carmo. Universidade de São Paulo, 2021.

    PDF: pp. 64 e 126–128; pesquisa de campo em 2019–2020.

  5. Regras dos Sorteios

    CAIXA. Portal Loterias CAIXA, versão consultada em 28/10/2026.

    Equipamentos; Loteria Federal; auditores populares; transmissão.

  6. Bancos & bancas: a regulação bancária do jogo do bicho

    Rômulo Bulgarelli Labronici e Norberto Montani Martins. Sociologia & Antropologia / SciELO, 2025.

    v. 15, n. 1; DOI 10.1590/2238-38752025v1516.

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